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O metabolismo virou a principal causa de adoecimento crônico. E ainda é tratado como fator de risco.

Dr. Guilherme Marques | Médico e CMO da Cannect

Dr. Guilherme Marques | Médico e CMO da Cannect

Revisão Médica • 06 Aug 2026 • 5 min de leitura


O metabolismo virou a principal causa de adoecimento crônico. E ainda é tratado como fator de risco.

Quando as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) são apresentadas em bloco, o número impressiona e explica pouco. Em 2021, elas responderam por 43,8 milhões de mortes no mundo, 64,5% de todos os óbitos, com taxa ajustada por idade de 554,63 por 100 mil habitantes, e acumularam 1,73 bilhão de anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs), cerca de 59,9% da carga global. É o único grupo de agravos que cresceu em números absolutos de DALYs entre 2010 e 2021 (GBD 2021). 

O que interessa a quem cuida de doença metabólica é o recorte dentro desse bloco. 

O eixo metabólico é o motor, não o coadjuvante. Os três principais fatores de risco metabólicos, hipertensão arterial sistêmica, hiperglicemia e índice de massa corporal elevado, dominam a contribuição para a carga de doença cardiovascular e de diabetes. Ou seja: boa parte dos 19,4 milhões de mortes por doença cardiovascular registradas em 2021 é desfecho tardio de disfunção metabólica não controlada. O diabetes aparece isolado com 1,7 milhão de mortes, 2,4% do total, mas o dado relevante não é o volume: é a velocidade. Foi a DCNT com maior crescimento de incidência do período, com variação percentual anual média de 2,41% entre 2000 e 2021. 

A curva não é apenas de países pobres. Regiões de alta renda lideram a incidência de diabetes, com 461,41 por 100 mil habitantes. A premissa de que distúrbio metabólico é doença de população afluente e idosa está superada há tempo: diabetes e hipertensão acometem cada vez mais adultos jovens em países de renda média e baixa, com efeito direto sobre produtividade, absenteísmo e aposentadoria precoce por invalidez. 

O Brasil dentro dessa curva

Os números nacionais são mais duros que a média. 

Segundo a 11ª edição do Atlas de Diabetes da IDF, o Brasil tinha 16,6 milhões de adultos entre 20 e 79 anos vivendo com diabetes em 2024, prevalência ajustada por idade de 10,6%, com projeção de 24,0 milhões em 2050. Três dados desse mesmo conjunto merecem atenção clínica direta: 

  • 31,9% permanecem sem diagnóstico, o equivalente a 5,3 milhões de pessoas;
  • 17,8 milhões apresentam tolerância diminuída à glicose, prevalência ajustada de 11,3%, uma população em risco elevado de conversão para diabetes tipo 2; 
  • O gasto em saúde relacionado ao diabetes chegou a 45,1 bilhões de dólares em 2024, cerca de 2.715 dólares por pessoa.

O Vigitel confirma a tendência pelo lado do comportamento e do diagnóstico autorreferido. Entre 2006 e 2024, o excesso de peso em adultos passou de 42,6% para 62,6%, a obesidade de 11,8% para 25,7%, o diabetes de 5,5% para 12,9% e a hipertensão arterial de 22,6% para 29,7%, atingindo quase um terço da população adulta.

A meta do Plano de Ações Estratégicas para Enfrentamento das DCNT 2021 a 2030 era deter o crescimento da obesidade tomando 2019 como referência. A prevalência atual já ultrapassou esse patamar com folga. 

A desigualdade regional é parte do quadro

O Brasil está em estágio avançado de transição epidemiológica, com doença isquêmica do coração e acidente vascular cerebral liderando as causas de morte desde o fim dos anos 1960. Mas Sul e Sudeste apresentam perfil típico de população envelhecida, enquanto Norte e Nordeste carregam dupla carga, com DCNT crescentes somadas a doenças infecciosas endêmicas e menor capacidade instalada para cuidado longitudinal. 

Houve entrega concreta. A Estratégia Saúde da Família se consolidou como plataforma de prevenção e manejo, com reduções documentadas em mortalidade de adultos e em internações por condições sensíveis à atenção primária. O Farmácia Popular tornou gratuito o acesso a medicamentos para hipertensão e diabetes. O plano de reorganização da atenção ao diabetes e à hipertensão, de 2001, incorporou cerca de 320 mil pessoas ao sistema. 

E ainda assim o problema segue aberto: subfinanciamento, desigualdade de acesso, fragmentação entre níveis de atenção e incorporação insuficiente do modelo de cuidado crônico na rotina assistencial. 

São Paulo é o exemplo mais didático do que vem pela frente. Baixa mortalidade prematura e, simultaneamente, alta carga de anos vividos com incapacidade. Vive se mais, e vive se mais tempo doente. Para a doença metabólica, isso significa mais anos de exposição a hiperglicemia, mais tempo de dano vascular acumulado e mais demanda por acompanhamento contínuo, exatamente o tipo de cuidado que o sistema, público e privado, menos sabe operar. 

Leitura para a prática: o desafio da doença metabólica no Brasil já não é predominantemente diagnóstico nem terapêutico. É de continuidade. Existe medicamento, existe evidência e existe diretriz. O que falta é estrutura de acompanhamento entre as consultas. É desse ponto que tratarei na próxima semana! 

Sobre quem revisou este conteúdo

Dr. Guilherme Marques | Médico e CMO da Cannect

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Médico - Chief Medical Officer da Cannect Life


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