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Saúde mental no Brasil: um olhar epidemiológico

Dr. Guilherme Marques | Médico e CMO da Cannect
Revisão médica: Dr. Guilherme Marques | Médico e CMO da Cannect
Médico e CMO da Cannect 04/09/2026 5 min de leitura
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Mulher no Brasil sofrendo com saúde mental

Resumo Rápido

Nas últimas duas décadas, a mortalidade por suicídio no Brasil apresentou tendência de alta, segundo dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde.

Estudos que analisam a série 2005-2024 mostram elevação da taxa padronizada por idade, com aceleração acima do esperado a partir de 2021, e estimativas de mortalidade regional variando de cerca de 4,8 a 9,2 por 100 mil habitantes

Nas últimas duas décadas, a mortalidade por suicídio no Brasil apresentou tendência de alta, segundo dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde.

Estudos que analisam a série 2005-2024 mostram elevação da taxa padronizada por idade, com aceleração acima do esperado a partir de 2021, e estimativas de mortalidade regional variando de cerca de 4,8 a 9,2 por 100 mil habitantes . 

No mesmo período, o diagnóstico autorreferido de depressão entre adultos brasileiros também cresceu: a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019 (IBGE) registrou prevalência de diagnóstico autorreferido superior à da PNS 2013, um aumento da ordem de 30%.  

Diagnostica-se mais. Morre-se mais. As duas curvas sobem juntas. 

Saúde mental no Brasil: correlação temporal não prova causalidade 

Pesam sobre a série os efeitos da pandemia de Covid-19, a melhoria progressiva do registro de óbitos no SIM e mudanças no acesso a meios letais. Mas a coincidência é grande demais para ser ignorada. 

Se o diagnóstico cresce e a mortalidade cresce junto, o que exatamente estamos tratando melhor? 

A resposta começa pelo que a PNS 2019 revela sobre quem recebe diagnóstico e não recebe cuidado. Mais de três quartos dos brasileiros com depressão não recebiam tratamento algum no ano da pesquisa, e essa lacuna ultrapassava 90% na região Norte.  

Outro estudo com a mesma base mostrou que o subdiagnóstico de depressão (isto é, sintomas compatíveis identificados por escala validada, sem diagnóstico autorreferido) atingia 63,6% dos casos, sendo mais frequente justamente nas regiões Norte e Centro-Oeste. 

A Organização Mundial da Saúde, em seu Mental Health Atlas de 2022, documentou que os governos gastam, em média, apenas 2% de seus orçamentos de saúde com saúde mental, proporção que cai para cerca de 1% nos países de baixa e média renda. 

O mesmo relatório mostra que metade da população mundial vive em países com 1 psiquiatra ou menos para cada 200 mil habitantes, e que especialistas em saúde mental infantojuvenil são praticamente inexistentes em muitos desses países. 

Profissionais de saúde mental não se distribuem uniformemente 

No Brasil, a desigualdade regional no acesso a profissionais de saúde mental é documentada há décadas na literatura especializada, com concentração histórica de psiquiatras e vagas de residência nas regiões Sul e Sudeste em proporção desigual à distribuição populacional. 

Essa disparidade persiste na rede de atenção psicossocial. Entre 2013 e 2019, a cobertura presumida dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) subiu de 71% para 87% no agregado nacional, mas essa média oculta diferenças relevantes entre unidades federativas, com estados do Norte historicamente abaixo da cobertura presumida de outras regiões. O problema não é apenas identificar quem adoece: é sustentar estrutura de cuidado equivalente em todo o território. 

Medimos diagnóstico, não medimos cuidado 

O Brasil dispõe de indicadores nacionais sobre sofrimento emocional autorreferido em adolescentes (PeNSE) e sobre diagnóstico autorreferido de depressão em adultos (PNS), mas não há, até o momento, inquérito nacional consolidado que meça a proporção de pacientes com acesso efetivo e continuado a um profissional de saúde mental após o primeiro contato, nem a taxa de abandono de tratamento ao longo do tempo.

Essa lacuna é eloquente: o país mede quem adoece e quem é diagnosticado, mas não mede sistematicamente o que acontece depois -se o cuidado se sustenta, se é interrompido, e em que ponto da trajetória isso ocorre. A disparidade persistente de cobertura de serviços entre regiões, mesmo com o avanço da média nacional, sugere onde essa continuidade tende a se romper primeiro. 


  1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Panorama dos suicídios e lesões autoprovocadas no Brasil de 2010 a 2021. Boletim Epidemiológico. 2024;55(4)
  1. Brasil. Ministério da Saúde. Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM). Óbitos por suicídio, Brasil, 2023. Brasília: MS. Disponível em: datasus.saude.gov.br. Acesso em: set 2026. 
  1. Brasil. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Edições 2021 e 2023. Brasília: MS. 
  1. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional de Saúde 2019: percepção do estado de saúde, estilos de vida, doenças crônicas e saúde bucal. Rio de Janeiro: IBGE; 2020. 
  1. Mrejen M, Hone T, Rocha R. Socioeconomic and racial/ethnic inequalities in depression prevalence and the treatment gap in Brazil: a decomposition analysis. SSM Popul Health. 2022;20:101266. 
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  1. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2019. Rio de Janeiro: IBGE; 2021
  1. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2024. Rio de Janeiro: IBGE; 2026

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