O tratamento de dores e doenças crônicas frequentemente leva os pacientes a uma condição conhecida como polifarmácia, em que ocorre consumo diário de múltiplos fármacos e tem como principal ponto de atenção a segurança das interações medicamentosas.
Com o avanço da medicina canabinoide nos últimos anos, o CBD e o THC passaram a fazer parte também dos tratamentos para o manejo de diversos sintomas associados a condições crônicas como ansiedade, insônia, dor crônica e condições neurológicas.
Com um potencial de atingir muitos desses sintomas ao mesmo tempo, a Cannabis abre as portas para uma possível redução da polifarmácia e revisão global do tratamento.
Ao mesmo tempo, a medicina ainda tenta compreender como o organismo processa os fitocanabinoides em conjunto com a medicação contínua.
Neste guia completo da Cannect, você entenderá os mecanismos de ação no organismo, os sinais de alerta e como a medicina utiliza a cannabis no processo de desprescrição.
O que é polifarmácia e por que ela exige atenção?
A polifarmácia é caracterizada pelo uso contínuo e simultâneo de 5 ou mais medicamentos, o que é uma realidade comum para pacientes com dor crônica, ansiedade refratária, insônia e demais doenças crônicas.
A grande questão associada à polifarmácia é o chamado efeito cascata, ou seja, quando um medicamento é prescrito para tratar o efeito colateral de outro.
Ao longo do tratamento, a sobrecarga de substâncias no fígado do paciente pode acarretar os seguintes problemas:
• risco de toxicidade orgânica elevada;
•incidência de tonturas, confusão mental e quedas;
• ruptura na adesão ao tratamento por excesso de comprimidos e horários conflitantes.
Como funciona a interação medicamentosa do canabidiol no organismo?
Para compreender a interação medicamentosa do canabidiol com outros medicamentos, é importante saber que o fígado é um dos principais órgãos responsáveis pela metabolização de diversas substâncias, e nele se encontra o sistema Citocromo P450.
O papel do sistema Citocromo P450 (CYP450)
O sistema ou complexo Citocromo P450 é o responsável por metabolizar medicamentos alopáticos e os fitocanabinoides como o CBD e o THC.
Quando os canabinoides são utilizados em conjunto com outros medicamentos, pode haver interação com diferentes enzimas desse complexo, entre elas CYP3A4 e CYP2C19, podendo resultar em:
- Retenção do fármaco: o CBD “ocupa” a enzima, fazendo com que o outro remédio demore mais para ser metabolizado;
- Aumento dos níveis plasmáticos: a concentração do remédio convencional no sangue pode subir além do esperado, potencializando seus efeitos colaterais.
- Redução da eficácia: em medicamentos que precisam ser ativados pelo fígado, o CBD pode reduzir a conversão da substância ativa.
Nem toda interação possui relevância clínica, mas a avaliação médica deve considerar quais medicamentos o paciente utiliza e seu contexto clínico.
As principais interações medicamentosas com cannabis medicinal
Para ajudar você a entender melhor as interações entre a cannabis medicinal e os medicamentos de uso contínuo, a Cannect preparou a tabela abaixo:
Como monitorar a interação medicamentosa em casa?
O monitoramento por parte dos próprios pacientes e seus cuidadores é uma parte importante da segurança de qualquer tratamento para doenças crônicas.
É muito importante procurar a ajuda médica caso apareçam os seguintes sintomas:
- sedação excessiva ou lentidão motora fora do habitual;
- tonturas e vertigens ao se levantar rapidamente;
- boca seca intensa, náuseas ou desconforto gastrointestinal persistente;
- manchas roxas involuntárias na pele (no caso do uso associado a anticoagulantes).
A partir da comunicação dos efeitos colaterais ao longo do tratamento, o médico responsável pode ajustar a posologia do fitocanabinoide ou dos demais medicamentos.
Desprescrição e Desmame de remédios com segurança
Apesar da necessidade de cautela com as interações, a cannabis medicinal é uma das ferramentas mais promissoras da medicina moderna para combater a polifarmácia através do conceito de desprescrição acompanhada.
A desprescrição é o processo planejado e supervisionado clinicamente de redução ou retirada de medicamentos que deixam de apresentar benefício suficiente ou passam a oferecer mais riscos que vantagens ao paciente.
O papel da cannabis medicinal no desmame de alopáticos
Quando há melhora consistente dos sintomas após a introdução dos canabinoides, surge a oportunidade de reavaliar se todos os medicamentos utilizados anteriormente ainda são necessários.
Quando houver segurança e indicação clínica, o médico pode orientar e monitorar o desmame progressivo de alguns medicamentos, como:
- Analgésicos, opioides e anti-inflamatórios: quando há redução da dor, pode ser possível reduzir gradualmente seu uso, diminuindo também riscos associados ao uso prolongado;
- Benzodiazepínicos e Z-drugs (tarja preta): com melhora do sono ou da ansiedade, pode ser considerada uma redução gradual e controle da abstinência;
- Ansiolíticos e antidepressivos: em pacientes com melhora sustentada dos sintomas, o tratamento pode ser reavaliado e reduzido de forma progressiva;
A regra de ouro da introdução da cannabis medicinal em quadros de polifarmácia é o mantra clínico: “Start low, go slow“
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